Por H. C. Paes
Não posso falar pelas outras áreas, mas para as ciências da vida, o principal problema no Brasil está na arquitetura dos departamentos, faculdades e laboratórios.
A maior parte das pessoas de fora acha que quem toca a pesquisa são os pós-graduandos, pós-doutorandos e professores, líderes de grupo de pesquisa. Isso é até verdade, mas não são esses profissionais que garantem a continuidade dos projetos de longo prazo.
Deixem-me dar um exemplo. Uma linha de abordagem de uma questão científica importante – especialmente em ciência básica, conhecimento novo – não é assunto para uma tese de doutorado de quatro anos, ou pós-doutorado de dois. Quando uma idéia nova ganha corpo na bancada de experimentos, ela pode gerar frutos durante décadas, e praticamente definir a vida de pesquisa do professor responsável.
Mas os estudantes e pós-doutorandos vêm e vão. Posso citar vários casos de projetos interessantes que foram iniciados por doutorandos ou mestrandos, e abandonados assim que estes concluíram seu período de estudos e foram tocar a vida. O professor, chefe do laboratório, fica na sua sala tendo idéias e redigindo pedidos de fomento, e não pode tocar projetos na bancada. A conseqüência é que, no Brasil, muitos projetos interessantes não ganham corpo por falta de continuidade.
A explicação que encontro – novamente, ressalto que se trata da minha área – é que a arquitetura de pesquisa no Brasil se divide entre generais e recrutas e cabos. Não há tenentes, coronéis e majores. Explico melhor: nos minúsculos departamentos universitários brasileiros, os únicos funcionários permanentes são os professores e alguns técnicos de nível médio e superior. Não há profissionais de pesquisa com estabilidade que dêem continuidade aos trabalhos iniciados por estudantes.
Num laboratório de país desenvolvido, o professor responsável freqüentemente se cerca de, digamos, um professor júnior, um ou dois pesquisadores sêniores, e mais um ou dois especialistas. São gente com doutorado, mas que não tem, e não quer ter por não ter perfil ou vontade, o próprio laboratório, mas que garantem que todas as linhas de pesquisa se mantenham caminhando. Eles têm estabilidade, aposentadoria, benefícios e um bom salário, e por vezes desempenham tarefas docentes, mas sua dedicação quase exclusiva é ao laboratório. Conforme novos estudantes e pós-doutorandos chegam, eles assumem parte das linhas de pesquisa existentes, ou iniciam abordagens novas, mas o time permanente garante que nada que valha a pena se perca quando esses alunos se vão.
No Brasil, esses profissionais altamente qualificados não existem. O departamento é composto só de caciques, e se abrem concursos apenas para novos caciques. E os índios entram e saem, metarmofoses ambulantes, e as linhas de pesquisa nascem e morrem com eles.
O departamento de Biologia Celular da Universidade de Brasília, um dos mais fortes do Brasil em pesquisa de microorganismos, tem quarenta professores, cada um com seu próprio grupo de pesquisa, e nenhum cientista sênior ou pesquisador com dedicação exclusiva aos laboratórios. Nos Estados Unidos, um departamento pode até ter menos professores, mas contará com igual quantidade daquele segundo grupo de profissionais.
É por isso que, conquanto o Brasil publique quase doze mil artigos por ano, o fator de impacto (medida da relevância científica pelo número de citações) das publicações em que esses artigos saem (pelo menos em ciências da vida) é invariavelmente baixo: os artigos refletem normalmente o resultado de quatro anos de pesquisa, pouco mais ou menos, e cada um é um broto novo. Num país desenvolvido, os artigos são publicados em revistas como “Science” ou “Nature” porque envolvem o esforço concertado de muitos estudantes e profissionais dedicados por seis, sete anos.
Embora o dinheiro seja ainda um problema, melhorar a arquitetura dos departamentos com a criação de cargos exclusivamente de pesquisa, além de aumentar MUITO a densidade demográfica de profissionais pesquisadores (os EUA têm uma população de dois milhões de cientistas) já seria um grande avanço.